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sábado, 29 de julho de 2023

Doses cotidianas

Há 13 anos eu iniciei minha dose diária do comprimido da tireoide. Termina uma caixa e começa outra. Anualmente eu passo no endocrinologista para os exames de rotina.  Em uma das consultas uma frase me marcou: “ninguém vai suar o seu suor.” Tem coisas que é você com você. O médico disse isso enfatizando a importância do exercício. Eu aprecio caminhar e ainda que eu falhe na disciplina da meta semanal, por conta de alguns entraves que surgem na agenda, eu sigo tentando …

… Ontem, sentada em minha cama, segurando as duas cartelas 88 do hormônio, uma avalanche de recordações desabrocharam pelos meus sentidos, reflexões sobre as muitas doses pontuadas na composição dos dias. Algumas bem amargas, umas como conta gotas, outras como injeções doloridas e outras mais suaves. Vestida com o meu pijama azul eu me enxerguei contemplando a brisa maresia no mar, na poltrona do livro, na profundidade dos mergulhos no açude, rio e ondas, nos passos das trilhas, na alvorada com a festa dos pássaros, no arrebatamento do céu noturno do sertão, no riso da minha tríade, na música da Marisa e Alceu, na reza de vozinha, no cheiro do café e tantas outras sensações tatuadas na alma…

… marcas de diferentes ciclos que brotam na memória, despertadas por elementos tão comuns quanto estranhos, como um comprimido. Sentei na rede, sentindo o vento leve da manhã tocando no sino dos ventos e mergulhei nos momentos que palpitaram. Fechei os olhos para ouvir o sussurro do som trazido de tantos cantos. As vozes dos ventos ecoam saudades. De repente lembrei-me do sonho da madrugada, eu estava na sala colorida de uma casa, que tinha uma janela pequena envidraçada. De lá eu avistava uma árvore. Nela, abraçado pelas folhas verdes vivas, sentado em um dos seus galhos, estava o Arthur colhendo frutos…

… saltei da lembrança do sonho para a claridade do dia, guardei meu comprimido na gaveta da cama e iniciei meu ritual matinal pensando nos capítulos passados, sobre a intensidade do presente que nos convida a fazer escolhas, enveredar por novos caminhos, encarar mudanças, plantar, semear, colher e seguir construindo memórias. E eis que veio a imagem da capa do caderno que no Norte ficou, das páginas que escrevi durante a viagem, das que estão sendo escritas por minhas meninas filhas. E pensei no quanto as palavras, faladas ou escritas, alimentam nossas doses cotidianas.


num único dia cabem diferentes doses...

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Além das palavras

Há muito além das palavras. As palavras têm muitas entrelinhas. E mesmo quando não emitimos nenhuma palavra o corpo fala de várias maneiras. “O corpo é ser multilíngue”. Li esta frase no Livro Mulheres que Correm com os Lobos que é uma obra referência na minha vida. Um dos meus livros de cabeceira que indico para todas as mulheres que conheço. Sim, o corpo é mesmo um ser multilíngue e suas vozes aflora tocado pelas emoções.

Ir além das palavras é um caminho de sensações. Palavras podem retratar uma noção do que sentimos, apenas uma noção. E, ao mesmo tempo, as palavras tem uma grande força de expressão e tem o poder de transmitir mensagens. Pode ser como a porta de entrada para aguçar o olhar do coração de muitos que tem a coragem de enveredar pelo caminho da proximidade verdadeira.

Minhas madrugadas reflexivas são um chamado para a expressão. Meus sonhos alertas. Quanto mais me aproximo de mim mesmo amplio minha percepção das lições dos erros, da necessidade de mudanças e nas muitas possibilidades para melhorar em todos os sentidos. Ir além das palavras com palavras não ditas que estão a me engasgar com um nó dolorido. Para encontrar a luz, eu preciso mergulhar na sombra com clareza e coragem.

Missão cumprida

Já retornei do inverno Norte para o verão Sul Global Latino. A viagem missão quarentena pelo segundo ano consecutivo. Apesar de voltar dilac...