segunda-feira, 8 de março de 2021

Preconceitos cotidianos

Já escrevi outras vezes sobre o preconceito que eu sinto na pele no meu setor de atuação. Infelizmente é uma prática recorrente que nós mulheres sofremos em diversos segmentos do mercado de trabalho, sem contar em tantas outras ocasiões do cotidiano que escancara a forma preconceituosa que vai se perpetuando na sociedade. O índice de violência contra a mulher é um dos desses tristes retratos.

Perdi as contas de algumas frases machistas que ouvi. Esses dias no trânsito ouvi um homem gritar a plenos pulmões com uma mulher dirigindo: “vai pro fogão que seu lugar é lá e não atrapalhando o trânsito.” Além de embrulhar meu estômago a fala nociva faz pipocar a lembrança de outras que eu já escutei, das quais vou citar apenas algumas para elencar o abuso que sofremos todos os dias:

 “Nossa seu marido não liga que você sai e viaja sozinha?” Com olhos arregalados do tipo que diz assim: nossa que doida!

“Até que você entende!” Com desdém.

“Você que escreveu esse texto?” Com ar duvidoso da minha capacidade!

“Uau você gosta de futebol e vai ao estádio?” Com espanto e crítica.
 
“olha a roupa dela que insinuante, depois não quer ser estrupada.” Nem vou comentar o tom dessa frase

“olha o cargo dela, deve estar saindo com o chefe.” Que asqueroso!

“tem coragem de amamentar na rua!” Sim eu amamentei minhas duas filhas e meu filho e nunca tive a mínima vergonha de fazê-lo em público.

Vou parar de citar antes que eu vomite. Ah e eu ouvi isso de mulheres e não apenas de homens. Cada frase dessa tem enredos que uma hora vou escrever em detalhes.

E para ilustrar esse post, a magnífica capa da Forbes com a inspiradora Djamila Ribeiro. Leia Djamila, leia tantas outras mulheres fantásticas! Parabéns todas as Mulheres nesse dia 08/03/2021. Dia que homenageia nossas conquistas e reforça todos os desafios que enfrentamos, todos os dias.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Gratidão pelas memórias de 2020

Todas as memórias de 2020 são intensas. Que ano doido! O ano em que a ausência bateu forte, as restrições nos confrontaram com desafios novos, a saudade latejou como nunca. A falta da proximidade dos encontros e abraços. Foram dias, semanas e meses numa lonjura de lugares e pessoas que amamos. E iniciaremos o novo ano ainda nesse cenário. Ainda assim, estou viva nesse 31/12/2020 e sou muito grata por estar aqui, sentada no meu quintal, ouvindo os pássaros anunciando a alegria do amanhecer, ao lado das minhas plantas e flores, com um céu azul de pequenas nuvens brancas e com o coração transbordando de esperança sentindo a brisa de verão desta manhã.

As recordações de 2020 não caberão em nenhuma página ou livro, muito do que vivenciei ficaram entalados na garganta, presos na reflexão dolorida que sufocaram as lágrimas que um dia irão jorrar e nas lembranças que irei escrever. Sim eu escrevi muito pouco este ano, apenas pequenas notas rabiscadas. Enviei cartas para minha filha e vozinha, algumas escritas a mão, com minha letra quase indecifrável. Ainda gosto disso, ainda que um calo chato pelo jeito que seguro a caneta incomode. Ele fica marcado, como as letras escritas no papel, pintadas com lágrimas que secaram a folha e ainda assim, seguem na carta.

Eu li muito, Maya Angelou, Angela Davis, Djamila Ribeiro, Grada Kilomba, Miguel Nicolélis, Cidinha da Silva ...ah os livros foram e seguirão sendo companhias sagradas. Adoro cheiro de livro, folhear e marcar trechos. E por falar neles o Leia Mulheres presencial fez tanta falta. Foi nesse projeto ímpar que conheci autoras como Conceição Evaristo, Jarid Arraes, Gioconda Belli, Scholastique Mukasonga, Ana Rusche, Mariana Carrara, bell rooks minha próxima leitura e tantas outras escritoras maravilhosas. Laço duradouro que seguirei acompanhando. Ler é um hábito aprendiz e múltiplo. Minha filha Isa também mergulhou na leitura e sinto tanto orgulho de vê-la lendo com tanta sede. Incentive seus filhos a ler, é um exercício de amor.

Do verão em janeiro e agora de sua chegada em dezembro eu acompanhei a árvore do João de Barro. As mudanças nas estações, das folhas caindo até os galhos secarem, delas renascendo, crescendo e enfeitando o céu com sua copa frondosa. E o presente que veio na primavera com o novo ninho que vi sendo construído com maestria. Vidas florescendo no ninho casa. E que sejamos CASA onde quer que nossos passos caminhem. Vem 2021! 

Verão janeiro

Outono abril 2020

Inverno julho 2020

Primavera outubro 2020

Verão dezembro 2020

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Sobre dores, escolhas e levezas

Cada um sabe das suas dores e aperreios. Depois de muito tempo, procuro olhar cada situação com uma visão aprendiz. Não é fácil, nem sempre consigo, sigo tentando, é um processo persistente. Há dias que esmorecemos. Em outros renovamos as forças no clarear do amanhã. Até nesse ponto hoje me sinto mais madura, antes eu me crucificava quando eu não conseguia abarcar tudo. Hoje não, eu aceito que nem todos os dias eu vou conseguir cumprir todas as tarefas do cotidiano. Passei a me acolher também, respeitar meu limite para viver cada dia com mais leveza. Até voltei a caminhar. Um exercício de Amor. Sim e ando tão seletiva ou, como diz meu marido, cada dia mais chata. Segundo ele é a menopausa. Ou o amadurecimento. Ou a soma dos dois, o certo é que os cabelos brancos pipocam. Como diz meu irmão: “relaxa Maria Ivone”. Eu respiro e sorrio ouvindo sua voz que vem na brisa pensamento trazida pelo mar da saudade. Não estou nem no seu rastro de leveza meu irmão, mas prometo que estou melhorando.  Assim evito outra úlcera e coisas do tipo que corrói os órgãos e a alma. Fazia tempo que eu não escrevi e voltei também a rabiscar. Antes que a quarentena acabe meu caderno estará cheio de cartas.



sexta-feira, 31 de julho de 2020

Que a gratidão prevaleça

Encerrando mais um mês desse estranho ano de 2020. Tem uma mistura de sentimentos palpitando aqui. Que a gratidão exploda na frente e faça permanecer a esperança por dias melhores, por menos mortes, diminuição de contaminação, pela desaceleração dessa pandemia, pelo êxito das vacinas. Essa elevação das mortes me afeta muito, não são apenas números de estatísticas frias, são pessoas com seus laços. É doido demais. Tenho procurado acolher minha tristeza.

Eu rezo. Eu dou risada das tiradas do meu marido. Eu choro também e minhas lágrimas quentes se misturam no chuveiro. Eu que sempre enalteci a saudade feliz, daquilo que sentimos do que amamos, tenho sido cortada pela saudade latejante da distância que se alonga demais. O alongamento da quarentena parece não ter fim e sofremos, cada um do seu jeito, essa ausência dos encontros e abraços.

Hoje eu acordei ouvindo o canto do galo e dos pássaros saudando a manhã fria. Há um céu nublado e uma garoa fina. Ainda assim o som do despertar dessa aurora me trouxe um afago. Que a gratidão, a esperança, a fé e o amor, prevaleçam, sempre.

A árvore que acompanha minhas estações. Julho. Inverno. 2020. O ninho segue firme e inspirador


quinta-feira, 25 de junho de 2020

Impressões sobre a pandemia

1) a liderança do governo e a resposta das medidas sanitárias são essenciais para o combate da Pandemia. Nesse quesito nosso país deixa a desejar e muito. Só para citar um ponto, veja a ausência de equipe técnica da saúde no Ministério. Pior ainda são os criminosos do poder aproveitando o estado de calamidade para roubar ainda mais. Não tenho palavras para designar esse absurdo!

2) O vírus tem um agente transmissor que somos nós. Não tem ações milagrosas, não tem solução que não seja a prevenção tão fortemente divulgada. Sem a participação efetiva da população o número de contágios não diminuirá, consequentemente, o de mortes também não. Tem estados no Brasil que já colhem os efeitos positivos do isolamento mais restritivo e que seguem avançando com cautela na liberação das atividades. No entanto, é preciso mais do que nunca da colaboração da população e de todos os atores envolvidos para não retroceder.

3) Não há tratamento efetivo ainda para a doença. Estudos promissores de medicamentos que estão sendo usados como a Dexametasona, o de plasma de curados, dentre outros, são tentativas de tratamentos e minha oração e a de muitas pessoas é de que os estudos avancem e que haja êxito com esses remédios para diminuir o número de óbitos.

4) Sim há um custo altíssimo econômico gerado pela pandemia, aqui e em todos os lugares do mundo que ela está atingindo (com diferentes proporções). Eu ouço todos os dias relatos tristes de negócios a beira da falência, outros fechando e de pessoas que perderam o emprego. Infelizmente nos países com maior desigualdade a conta é ainda mais danosa. Com desemprego em alta e falta de investimentos o cenário é difícil. Não esmorecer é heroico.

5) O número de infectados e mortos são doloridos. A esperança é que os testes das vacinas que estão em estágio mais avançado sejam positivos. Será a melhor solução. Eu diria até que no contexto da crise atual é o milagre para a humanidade. Só espero que haja igualdade na vacinação para as pessoas, de todos os cantos do planeta.

Por fim, a solidariedade com os menos desfavorecidos, a empatia, a compaixão e o AMOR, são valiosos nas palavras e mais ainda na prática.  Ouço muitos falando de um “novo normal”. Será mesmo que as lições servirão para que as pessoas despertem, reflitam sobre suas atitudes e assumam o compromisso de melhorar em distintos sentidos? Sinto que há uma clara mensagem do universo. Uns enxergam. Outros não e seguirão com suas atitudes egoístas e hipócritas. “Quem tem ouvidos, que ouça.” Nem todos estão dispostos a escutar.




domingo, 31 de maio de 2020

Racismo criminoso e triste

Eu sinto muita tristeza pelas últimas mortes das pessoas negras. Corta meu coração, tira minha respiração, explode em lágrimas quentes. No dia que eu deixar de ter compaixão e não sentir a dor do meu próximo, eu estarei morta. Enquanto vida tiver eu clamarei #vidasnegrasimportam

O racismo corrói, é uma doença crônica que assola muitas pessoas. Terrível esse pensamento de superioridade, julgando o outro inferior, oprimir, humilhar e matar. Eu não entendo como a maldade pode atingir um nível tão algoz. Já ouvi dizer que o racismo contra o negro é herança da escravidão, de como eles eram tratados como objeto de lucro. A abolição não foi real em muitos aspectos, principalmente, nas condições de trabalho, nas injustiças e na presença tão gritante do racismo na sociedade. É triste, é criminoso e não podemos nos calar diante dessa brutalidade que acontece aqui e em tantos lugares do mundo, todos os dias.

Eu conheço pessoas que rezam para Nossa Senhora Aparecida e olham torto para pessoa negra. Nossa Senhora é negra. Isso é hipocrisia.

Eu vejo pessoas discriminando o outro pela cor. E julgam a si mesmo como pessoas de bem e de família, rotulando a dele como perfeita. Vão a igreja orar e suas atitudes contradizem o que prega a palavra de Deus. Você é um hipócrita.

O preconceito racista tem muitas nuances. Eu mesma já sofri muito preconceito pelo sotaque. Na escola olhares e risadas que destilavam ódio. Eu nunca me curvei. Jamais deixei de falar meu OXENTE. E sigo tendo um orgulho enorme de onde vim e de quem eu sou.

É uma pena que nem todos consigam ter empatia pelo outro, ver o negro e o diferente como irmãos que somos. Perversas pessoas com mãos manchadas do criminoso sangue do racismo. Não podemos nos calar. #vidasnegrasimportam 


quinta-feira, 30 de abril de 2020

As páginas de abril

A página não está em branco. Mesmo que nesse período eu esteja escrevendo pouco. Parece que está tudo sufocado aqui dentro. Cheia de dores e esperanças. Entres lágrimas e sorrisos a vida pulsa na saudade que dói. Hoje acordei e ainda vi estrelas no céu. E junto ao cheiro de café, contemplei a claridade chegando no quintal.  É final de abril e fiquei refletindo sobre esse mês atípico e das marcas que ele tem cravado em nossas vidas. Ainda assim, temos motivos para agradecer...

Abril é sempre especial, mês do aniversário da minha primogênita e do nosso caçula. Outono aqui, primavera lá. A comemoração diferente, com simplicidade e muito amor. Eles crescem, cada um a seu modo e no seu tempo, fortalecendo essa teia de cada estação, ramificando o infinito amor que nos enlaça. Gratidão por mais um mês, eu poderia escrever tanto, mas está tudo dolorido demais por hora.

Desses encontros virtuais que ampliam a saudade da presença

Missão cumprida

Já retornei do inverno Norte para o verão Sul Global Latino. A viagem missão quarentena pelo segundo ano consecutivo. Apesar de voltar dilac...