quarta-feira, 29 de março de 2023

Desfolhada

Minha flor do deserto desfolhou. As folhas secas agora adubam a terra e pequenas novas folhas começam a surgir no seu novo ciclo. Seu tronco me lembra o Baobá.  Lembrei-me das flores que desabrocharam há alguns meses e embelezaram meu quintal. Quantas vezes precisamos nos desfolhar para renascer? A cada fase lunar? No despertar do novo dia? O que levar na bagagem? O que se desfazer de vez? Na inquietude das perguntas que palpitam, o vento do outono sopra mudanças como um chamado.

Na minha quietude há um turbilhão de sensações que latejam. Sim eu ando quieta na minha quaresma transformadora. Nesse espaço tão meu que me convida a me escutar e se aproximar das minhas aspirações que tantas vezes foram deixadas de lado. Talvez seja a maturidade da pré menopausa sacudindo os sentimentos, ou apenas é chegada a hora de realmente me ouvir e fazer minhas escolhas.

Nesse conflito de tantas situações e nas reflexões tão profundas que afloram no meu silêncio, percebo o quanto me distanciei em alguns aspectos dos caminhos que um dia sonhei trilhar. E sim eu me dediquei muito e continuo me dedicando em tudo que me proponho a fazer, ainda que as decisões tenham sido conduzidas por prioridades que não estavam alinhadas com minha natureza. Não tinha como ser diferente diante das circunstâncias e tudo bem pelo aprendizado.

Olho pra trás e vejo que me deixei de lado muitas vezes. Não sinto culpa nem estou culpando ninguém, foram meus passos e tudo teve um propósito. Minha entrega de amor ao mundo e as pessoas da trança de gente que sou. Mas e agora? A idade avança e o tempo ligeiro tem me convocado a encarar a estrada que tenho pela frente. Uma tempestade de fortes marés no rio de sentimentos para navegar. Para chegar ao mar tenho que atravessar muitos solos, alguns bem áridos, para ir cultivando a fertilidade dos meus desejos. Neste momento estou apenas desfolhada. Ei de florescer!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

O ciclo 48

Sobre maturidade, idade, envelhecer, tabus e reflexões para a nova estação. Daqui 7 dias o Sol chegará no meu signo e muitas questões florescem nessa fase lunar que antecede meu aniversário. O relógio anda ligeiro para vocês? Tem sentido palpitar mudanças no roteiro? Tem se permitido pausas reparadoras? A idade avança no tempo do seu ritmo ou nesse ditado pela pressão? O mundo que nos cerca nos influencia sim, no entanto, de que forma nos permitimos ser influenciadas? Isso faz toda diferença. Até que ponto você preserva seus princípios? Como anda a sintonia com sua essência?

Para muitas mulheres falar de idade é desagradável, especialmente quando já estamos na pré e menopausa, uma pauta “tabu” que necessita ser ampliada. Há um padrão vigente de que sempre precisamos estar lindas e felizes....Enquanto pipocam os cabelos brancos, os hormônios desregulam, aparecem as rugas, desconfortos variáveis para cada uma...sofremos abusos, feminicídio, temos nossos direitos questionados, dizem que só reclamamos, que é mimimi e assim vamos acumulando essa carga tóxica, muitas vezes sem auxílio.

Envelhecer é um desafio também, mais um dos muitos, e que precisamos encarar com acolhimento, diálogo e troca entre nós. Quantas vezes já ouvi ao parabenizar as que passaram dos 40: “éh estou ficando velha.” Uma fala com um peso de angústia dolorida. Como se isso fosse uma sentença cruel. Acredito que não precisa ser assim e aqui não estou apenas floreando o envelhecimento. Estou refletindo sobre o quanto nos falta escuta, acompanhamento e partilha para aprendermos juntas a envelhecer com saúde integral e certa leveza também.

Já avançamos um bocado para ter nossos espaços e a luta é permanente. Já fomos tão proibidas de nos expressarmos e em alguns países isso ainda é realidade, infelizmente. Nossa voz tem poder sim e compartilhar nossas vivências amplia a rede de apoio para encontramos espaços de cura e conquistas. Numa sociedade patriarcal e machista que tenta nos silenciar, lutar pelos nossos direitos é exercício contínuo e começa por cada uma está mais perto de si, quando nos acolhemos abrimos estrada para acolher as outras.

Quanto daquela foto espetáculo do Instagram é apenas maquiagem? E aqui não estou falando da make em si que nos deixa bem bonitas, embora eu seja suspeita para falar porque não faço skin care diário, só bem raramente,falo de maquiar nossas verdades sufocando aquilo que sentimos. Isso é danoso sim, até porque muitas vezes esse sufocamento indica o sofrimento de um abuso ou necessidade de acompanhamento médico. Tem horas que precisamos gritar para ser ouvidas sim e quebrar o silêncio que nos corrói.

Ah e antes que as críticas sobre a maquiagem explodam, porque a falha na interpretação tem sido gritante e somos atacadas por nós mesmas, quando falo de sociedade machista incluo nela muitas mulheres nesse enredo, não sou contra maquiagem, minhas filhas amam, é que realmente nunca levei jeito e por muito tempo sequer tive dinheiro para um batom. Desde os 40 adquiri o hábito saudável de passar protetor solar, o que a dermatologista me passou, pinicou minha pele, o nívea 60 infantil eu indico.  E até isso que sei que é um privilégio porque muitas de nós não têm recursos para o básico, que dirá protetor solar!

Estou perto dos 48 anos e sinto na pele a idade que avança, as dores nas costas, o início dos sintomas da menopausa...porém tenho muito orgulho de estar envelhecendo pela bagagem que carrego e sede aprendiz que segue viva. Para os que me criticam por falar também de feridas, como diz Saramago, meu coração é feito de sangue e sangra todos os dias...eu sou desse tipo de DNA e no dia que eu não me doer pela dor do outro estarei morta. É reflexo da estrada de amor que sou. Esse Amor ação que move meus sentidos. Meu presente será procurar cada vez mais me acolher porque está próxima de mim é me tornar melhor proximidade para o semelhante. Que venha o novo ciclo 48!

Pronta para seguir na trilha aprendiz.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

O Não desperta o Sim.

O réveillon já passou, os dias avançam, devagar para alguns, ligeiros para outros.  Depois das comemorações você já ingressou no frenesi do cotidiano? Já está envolvido em tantas atividades, manipulado por tanta informação que nem tem parado para observar o céu, nem que seja pela janela. Você está disposto a sair do script de uma agenda cheia e às vezes tão vazia?

Já iniciou suas metas de ano novo ou apenas escreveu como incentiva o roteiro?
Sim afirmativo, já traçou um planejamento? Ou segue prorrogando as ações?
Nas suas resoluções definiu o que eliminar, continuar ou mudar?
A decisão do Não pode ser o impulso para o Sim. O que realmente te incomoda que você não pode mais aceitar? Eu te convido a fazer esse exercício. Acredito que iniciar resolvendo essa questão abre espaço para novas possibilidades.  

Situações que vamos deixando passar, engolindo a seco até engasgar, vão formando um caldo explosivo dentre da gente. São dores não curadas que se transformam em pedras, doença autoimune e eu mesmo sou prova disso. Sou repleta de cruzes, iguais aquelas das estradas do sertão, cada uma tem seu significado e hoje já consigo encarar minhas cruzes e vejo as feridas cicatrizando. Sim, estou envelhecendo nos fios brancos, nas rugas e no aprendizado.

O caminho aprendiz é o que fará diferença e começa por olhar para si e ter a coragem de enfrentar seus fantasmas. Eita tarefa difícil! Assistir com verdade o passado, estar no presente e vislumbrar o futuro, é o enredo das reflexões de muitas pessoas. E por mais que a passagem de ano seja uma data referência, todo dia é tempo de escolha ou escolhas. Algumas tem o poder de representar uma real virada.

Eu tenho minhas metas para 2023. Escrever um texto mensal para cada um dos meus Blogs é uma delas. Tenho outras já encaminhadas, outras nem anotei, estão tatuadas na alma.  A principal de todas é acolher minhas prioridades, seguir cicatrizando minhas feridas, ouvir cada vez mais minha intuição e fazer aquilo que ela palpita em tantos formatos, como nos sonhos ou no vento que canta vozes. Amor é acima de tudo ação e esse chamado me diz:

ser casa atenta aos seus sinais. Sinta, ouça, faça, floresça
um momento de reflexão sagrado no entardecer na Praia de São Sebastião.

Texto 1/2023 do meu primeiro Blog. Meta cumprida. Gratidão!

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Tríade de falas absurdas

Eu ando pela cidade de transporte público e coleciono cenas e conversas que me impactaram muito. Nas ruas, em parques, no restaurante, na livraria, nas plataformas e vagões do metrô e trem ...Já ouvi cada coisa e algumas ficaram marcadas. A fala é potente e as expressões dizem muito. Nesse texto sobre falas absurdas trago três situações:

1) “não acredito! A amiga da pastora que organiza junto com ela o chá das esposas virtuosas é a Amante do Pastor. Não pode ser!”
Responde a outra: É e posso provar. Gravei vídeos deles entrando no motel. Aquela mesma que me criticou por eu ter me separado do marido que me agrediu. Aparece bem a placa do seu carro e o adesivo de quem ele votou.
A ouvinte ficou pálida e disse: “então por isso você não foi mais ao culto? Eu tinha pensado que você não foi mais por causa da insistência pra gente votar você sabe em quem.”
“Não fui e nem vou mais, não nessa igreja. Aliás, vou sim para uma despedida, para dar meu testemunho da mentira daqueles que se dizem fiéis.”
Vixi que esse culto vai ferver!

2) “Odeio esses macumbeiros de merda, deviam incendiar todo terreiro.”
Parada para atravessar o farol escuto essa frase de uma “senhora cristã” que conversa com outra na rua. No bairro central de São Paulo. Ela está com a Bíblia na mão e espumando ódio na sua expressão desrespeitosa. Certamente desconhece a força dos Orixás, a grandeza da mitologia africana e destila seus comentários baseado na ignorância e preconceito.

3) “não gosto dessa gente preta.”
Essa eu ouvi de gente perto. E como o tempo se encarrega de dar voltas Eu respondi: Ué você que se diz devota de Nossa Senhora Aparecida, uma Santa Negra, a Padroeira do nosso Brasil.
“Não tem nada a ver uma coisa com a outra!”
Como não? Quem é racista contra seu irmão está ferindo a nossa Mãe Aparecida.

A igreja que critica ao invés de acolher, as “cristãs” intolerantes e que desrespeitam outra religião, a católica racista que reza para a Nossa Senhora Preta. A Fé incoerente com a AÇÃO de nada vale! Ando estarrecida com esses “cristãos.”

Da série falas Absurdas 2

Crédito imagem: Geledés

Série falas absurdas 1

Comecei a escrever uma série de falas absurdas que já ouvi e me causaram ânsia. Em algumas ocasiões vomitei de tanto que corroeu minhas entranhas, como se meu organismo tivesse que expelir a sensação para amenizar o horror. Resolvi catalogar algumas e imagino que muitas pessoas possam ter ouvido similares e até piores:

“não sei de onde a minha empregada tira alegria, fica lavando o quintal cantando samba, isso me irrita, esses dias tive de falar para ela limpar calada.”
Quando ouvi essa frase eu estava sentada na mesa, lendo meu livro enquanto meus filhos nadavam na piscina do condomínio. Fiquei imaginando o quanto a alegria da empregada incomodava essa patroa. Penso que ela nunca foi numa roda de samba e sentiu a energia alegre invadir sua alma.

“detesto esses feriados de 3 dias, quase não tenho mais louça limpa, a pia está lotada. Ainda bem que amanhã cedo a empregada vem.”
Era uma tarde quente de domingo, eu estava sentada na grama do parquinho observando meu caçula brincar. Fiquei imaginando as moscas voando pela cozinha. Entrei correndo em casa para vomitar de tanto nojo. Deve ser daquelas que se tiver uma diarreia não tem coragem de limpar a privada e preferem conviver com a merda espalhada pelo banheiro até a empregada chegar.

“Deveria ter como votar na escola particular que minha filha estuda. Odeio ir até escola em dia de votação e ver tanta gente pobre.”
Quando dizemos que essas pessoas que se sentem “superior” desdenham dos pobres de forma cruel somos chamados de comunistas por criticar o preconceito. Ouvi isso na pista de caminhada do Parque Villa Lobos.

“também anda com roupa indecente!” Esse comentário sobre uma notícia de estrupo é TÃO asqueroso porque coloca a vítima no lugar de vilão. Como se usar uma blusa com decote ou qualquer roupa que seja estímulo para sofrer violência. Horror!
Ouvi essa fala de uma mulher que conversava com uma amiga na fila do cinema quando estava na entrada, Desisti da sessão. Que repulsa!

O preconceito adoece a sociedade. Logo mais publicarei outras frases que eu preferia nunca ter ouvido e que revelam o quanto a discriminação acontece todos os dias, em tantos lugares. São pessoas que tem destilam ódio.

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Assédio eleitoral

Assédio eleitoral. Está acontecendo, todo dia, toda hora. Vou contar dois casos recentes, um comigo na companhia de minha sogra e outro no trabalho de minha mãe.

1) Eu deveria ter gravado a fala do neurocirurgião nas consultas. Ótimo na análise do caso, péssimo na conduta com o paciente. Vendo que a minha sogra é do Ceará, já foi dizendo “é parente ou amiga do Ciro que agora também é Lula? Cuidado que a partir de janeiro se Lula for presidente a poupança será confiscada.” Constrangedor suas falas!
Gente você vai numa consulta que paga caro, depois de uma tomografia e ressonância, com apreensão pelo diagnóstico e tem que ouvir isso! Estava tão exausta por tudo que tem acontecido esse ano que não consegui retrucar. Meu olhar fuzilava e nunca desejei sair tanto de um lugar. NUNCA mais retorno nesse Doutor PHD na sua área e antiético com seus pacientes. Imagino que ele deve usar essa mesma fala em todas as consultas. NOJO!

2) Na empresa que minha MÃE trabalha, no dia de assinar o recibo de pagamento, a gerente chamou 1 por 1 dos funcionários em sua sala para questionar em quem votaria e defender o atual presidente. Minha MÃE respondeu na altura de sua Verdade. Que orgulho dessa Mulher, de uma de nossas Marias! De Fátima.

Assédio eleitoral é CRIME!

domingo, 31 de julho de 2022

Gratidão julho/2022

Manhã de domingo, 31/07/22. A claridade na minha janela anunciava que o dia já tinha nascido. Sentei na cama recordando o sonho estranho da madrugada. Sacudi a cabeça para que ele se vá e levantei. Rezei. Ouvi os pássaros cantando lá fora, o silêncio da casa e o sino dos ventos tocando.  O cheiro de café inundava a cozinha e eu refletia sobre o mês intenso que hoje chega ao fim.  Sentei contemplando a janela e tomei meu café solo com pensamentos flutuantes pelos dias de julho. Engraçado perceber o que aflora na memória.

As idas às sessões na Santa Cecília, consulta na Angélica, a alta médica no Tatuapé, os passeios das férias em que a Mãe não está de férias, os livros que li, os encontros com a família e amigos. Cabe muita vida dentro de um único mês. Eu tenho meus meses marcantes e julho é e seguirá sendo um deles. É o mês do nascimento da minha Elo Sagrado, logo no dia 01/07, a menina invernal deste hemisfério. E esse ano Isabelly teve passeio com amigos no dia e depois teve festa com seu tema preferido, o infinito universo que palpita em seus sonhos.

Tivemos também o Batismo da Joana, filha da minha prima Joyce. Que dia memorável em que essa criança foi abençoada pelo Espírito Santo na companhia de personagens que a amam e que celebraram com tanto afeto esse dia. Teve o café com a amiga, desses diálogos nutritivos que seguem reverberando. Fazia tanto tempo que eu não tinha um momento desses, na companhia de uma pessoa que tanto estimo. Quando eu voltava pra casa nesse dia determinei que vou marcar eventos assim com mais frequência. E sim, são necessários. É um cuidado!

Ah e por falar em companhia, meus livros foram e seguirão fazendo parte da agenda de todos os meses. Em julho eu li e escrevi sobre o livro do Abel Ferreira e sua equipe, Cabeça Fria, Coração quente. Minha simples resenha está publicada em meu Blog de Memórias. Outro que me fez cair em prantos foi uma dica do meu irmão Paulo Eugênio: Sou a Mãe dela de Adriana Araújo. Ainda vou escrever em lágrimas minhas impressões. No momento estou lendo outro livro que indico, do admirável Dr. Drauzio Varella: O exercício da incerteza. Que livros! Que leituras!

Com as meninas fiz dois passeios, na lotada Bienal 2022. Voltamos carregadas de livros e memórias. E serão tantas as viagens que faremos nas leituras dos livros que estão na fila da leitura. A melhor fila que conheço. E de novo com elas fui ontem a Estação da Luz, Museu da Língua Portuguesa e na Pinacoteca. As letras, a língua, as conexões, as cores, a arquitetura, o café, o relógio, os mirantes, o jardim da Luz, as avenidas e os personagens na arte criativa e viva que é a  cidade.    

Molhei o pão no café, sempre faço isso e sorri na alma das lembranças das aventuras do passeio do Zoo com os meninos. Do olhar das descobertas, dos risos e das conversas deles e da estreia de dois deles no metrô e ônibus. E promovi encontros com os meninos em casa. Teve o dia dos primos gêmeos Murilo e Miguel, outro dia do primo João e dos amigos Caique, Ian e Guilherme. E o Arthur também foi à casa do amigo Gui, aquele que é “seu amigo desde a gestação.” Amanhã será dia de retorno às aulas e hoje a tarde Arthur tem que fazer a lição das férias, um registro de julho com férias em casa.

E assim termino meu registro do mês. Não caberia nesta página todas as gratidões que sinto. Que eu tenha saúde e energia para seguir sendo CASA por onde meus passos seguirem. Obrigada ao capítulo julho de 2022. Que as janelas de agosto sejam iluminadas.

A bela foto da minha Isabelly, das janelas no Museu da Língua Portuguesa

Missão cumprida

Já retornei do inverno Norte para o verão Sul Global Latino. A viagem missão quarentena pelo segundo ano consecutivo. Apesar de voltar dilac...