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quarta-feira, 3 de setembro de 2008

O fascínio que as paisagens e palavras exercem sobre a escolha da viagem

Quantos de nós não nos sentimos tentado a fazer as malas para visitar uma cidade pelas paisagens que apreciamos sejam em fotos, cartão postal, em vídeo ou pela descrição de alguém que visitou o destino? Muitos, posso apostar. Imediatamente vamos nos imaginando passeando por aquela praia, fazendo aquela trilha na montanha, visitando aquele museu ou igreja, mergulhando na cachoeira ou simplesmente tendo o prazer de contemplar a beleza do lugar abraçando a paisagem com o olhar.

Isso também acontece na literatura. Sempre que leio um livro viajo pelo universo das paisagens que se descortinam como um sonho em meus pensamentos. As viagens literárias também despertam o interesse do leitor em ir visitar o lugar onde o romance se passa, ou, a poesia escrita em homenagem a uma cidade é tão profunda e afetiva que instantaneamente nasce o desejo de conhecer a urbe tão merecedora de belas palavras. Um exemplo disso são as poesias de João Cabral sobre Sevilha, na Espanha, a descrição das ruas, do clima e da arquitetura forma todo um conjunto que é um verdadeiro convite.

Quero também visitar Minas de Guimarães Rosa, embrenhar-me naquele sertão sedutor, ora amedrontador, repleto de “causos”. Esse é um cenário ainda muito desconhecido e que guarda, sem dúvida, gratas surpresas e mistérios. Tem também as fazendas mineiras que sei irão deslumbrar-me com sua arquitetura e história, as montanhas da Serra da Mantiqueira, da Canastra, do Cipó, os vales, os rios, grutas, cachoeiras e como não podia deixar de lembrar, as delícias da gastronomia que tanto ouço falar.

Quero conhecer Amazonas de Thiago de Mello, descobrir os pássaros e peixes que vivem na floresta que ele tão bem descreve em suas poesias. Como quero ouvir o som do uirapuru que segundo esse poeta tem o canto mais magnífico do planeta, capaz de fazer calar toda a floresta parta escutar sua melodia. E falando em pássaro, quero também ir desvendar os mistérios do Pantanal que li na poesia de Manoel de Barros, que sabiamente disse: “quero a palavra na boca dos passarinhos”. Imagino o quanto é sublime o gorjeio das aves do pantanal, que, segundo o poeta, enlouquece até as árvores.

Na minha programação de viagens que espero realizar, também está na lista Fernando de Noronha. Assistindo o programa Expedições da TV Cultura que mostrou as riquezas da ilha, o canto e dança dos golfinhos, o mar cristalino e toda a extraordinária natureza daquele lugar, enaltecidos pelos relatos dos turistas que visitavam a ilha na ocasião da gravação, meus olhos e coração filtraram a paisagem para não mais esquecer e me esforçar a planejar minha ida a esse “paraíso”.

A matéria e as fotos sobre a Chapada dos Veadeiros, em Goiás, publicada na revista Terra, não me sai do pensamento. As flores do cerrado, a fauna, os riachos e cachoeiras, enfim, toda a grandeza desse ambiente natural do parque permeiam minha memória. É mais um destino na minha lista de viagens que pretendo ir planejando, e tem tantos outros que vou me apaixonando através das paisagens e palavras. É incrível como elas exercem um poder de decisão sobre a escolha do lugar da viagem.

Como estudante de turismo entendo que devemos nos preocupar imensamente com a importância da paisagem e das palavras que descrevem os destinos turísticos. Já visitei cidades que me decepcionaram e me cativaram. Essa tênue ligação entre encantamento e decepção tem a ver com as imagens que se apresenta no local. Claro que essa percepção varia de acordo com cada indivíduo, cada um tem sua forma de enxergar de acordo com seus valores sociais e culturais, no entanto, sempre será decepcionante receber um postal de um determinado atrativo turístico e quando vamos visitá-lo ele está sujo e pichado, ou, sermos atraídos pela paisagem maquiada de um lugar e quando chegamos lá não encontramos nada do que foi visto na agência onde compramos o pacote.

Essa é uma questão que me preocupa já que, infelizmente, muitas pessoas ainda não percebem a paisagem de sua cidade, e, consequentemente, não a valoriza, não defende, não preserva. Os turistas que visitam essas cidades com monumentos históricos pichados, ruas sujas, rios poluídos e com uma poluição visual devastadora, levam na bagagem uma péssima impressão dos moradores das mesmas. Creio que a cidade que moramos é nosso reflexo também e devíamos nos olhar no espelho de vez em quando.

A forma como interpretamos a paisagem é valiosa e esse fator é de extrema relevância para o turismo. Quando vendemos uma viagem estamos lidando com o sonho das pessoas, como um momento especial, cheio de expectativas que desabrocharam a partir do instante que a paisagem e a descrição da mesma levaram o turista a decidir visitar aquele determinado lugar. Ele vai alimentando esse sonho, vai imaginando esse mundo novo que ele irá revelar. A proximidade do dia da viagem aumenta a ansiedade do encontro como o local aguçando ainda mais o desejo do turista vivenciar essa experiência, que ele já pensa será inesquecível.

Claro que existem outros fatores que nos influenciam a viajar, como visitar a família, resolver algum negócio, mas, sempre iremos ter essa vontade de conhecer novos horizontes e essas descobertas nos traz um aprendizado imenso, por isso, não podemos esquecer que da mesma forma que as imagens nos seduzem, nos afastam. Como o turismo depende de uma rede de elementos agregados, procurar promover essa sintonia para atender o turista e atingir os seus anseios é fundamental. Essa é uma tarefa complexa e será sempre um desafio atingir esse objetivo já que depende da atuação dos vários atores que fazem parte do elenco dessa gigante peça teatral.

Espero sempre me surpreender com os lugares que pretendo visitar, assim, toda a atração aflorada pelas paisagens e pela escrita se transformará em uma vivência plena, e, ao retornar, espalharei aos ventos as maravilhas de um destino aprazível para que mais pessoas possam ir admirar também.

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