Sexta-feira, verão, manhã, caminhada orante, passos, folhas personagens, pássaros cantando, beija-flor, suor, banho, café e saída de casa. Escola, na companhia do Elo Sagrado, andamos, pausa para deixar mochila, cachorro-quente no calçadão, estação Osasco, bilhete, trem. Destino Ipiranga para mais uma consulta na especialidade gratidão. Linha 8 Diamante, próximo a passagem entre os vagões, no balanço do meio que Arthur adora surfar, ela está encostada lendo seu kindle. Um casal ao meu lado fala em espanhol ligeiro, toca o telefone dele e inicia uma conversa operária com quem está do outro lado da linha, negociações nos trilhos. O trem é também comunhão de línguas, lugares e personagens.
Barra Funda, escadas e na plataforma logo embarcamos na linha 10-Turquesa. Descemos
na Ipiranga, atravessamos o canteiro, a linha férrea, passamos pela comunidade,
roupas no varal em frente as casas miúdas, rádio tocando, vozes misturadas, passos
apressados, embaixo do viaduto o vai e vem das pessoas, atravessamos a rua e
chegamos na parada dos motoboys em frente ao Mooca Plaza Shopping. Muitos ali
esperando o chamado Ifood para sair com as entregas, disputando a pouca sombra
da calçada. 34 graus marca a temperatura e o céu anuncia o temporal. Entramos
no palácio das compras pela entrada dos boys delivery em frente a praça de
alimentação. Almocei com o coração latejando. Perguntei ao segurança sobre a
saída para pedir Uber e depois da parada para comprar o chocolate preferido da
Isa que acontece nessas ocasiões médicas, nos sentamos no confortável e assombreado
banco a espera do Uber. Pensei que os motoboys do outro lado, poderiam ter um
desses também.
Trovões e nuvens anunciam a chegada do temporal e eu rezei
para chegarmos antes dele desabar. Os pingos na janela, o Museu e o parque do
Ipiranga e mais adiante o centro clínico. Desço e me deparo com a lixeira que dá
o recado. Já no endereço familiar, com a chuva torrencial caindo lá fora, aguardamos
o chamado da Doutora Thaís que nos recebeu com seu sorriso. A gratidão a essa
especialista é contínua e o tratamento seguirá com novo retornos e, com a graça
de Deus, avanços. Ainda chovia, de forma moderada, quando descemos do primeiro
andar para iniciar o trajeto do retorno. Uma senhora passando mal, o socorro
das enfermeiras, a aflição da acompanhante. Ao nosso lado um casal, a senhora
dizendo ao marido que não voltaria com ele de moto, eles sofreram um acidente
que a traumatizou e os pinos são lembretes doloridos. Ela me perguntou sobre estação metrô e trem por perto, eu
expliquei e avisei que estava indo, ela disse que ia procurar ônibus para ir
até lá e eu respondi que não precisava, que ela iria conosco. Não tenho
dinheiro, retrucou. Não precisa eu já paguei o Uber e a senhora pode ir
conosco.
Na corrida, ela nos conta detalhes sobre o infarto do
marido, motorista do articulado do Campo Limpo-Bandeira, aposentado e que ainda
trabalha porque precisa, de como homem doente dá trabalho e eu concordei e até
o motorista do Uber entrou na roda, do filho que morreu com 48 anos há 2 meses
sozinho em casa no bairro de Pinheiros com um pico de diabete e que só 2 dias
depois encontraram seu corpo, da dor da perda...ela também irradiou alegria ao
falar da construção de sua casa própria perto de Poá, que está fazendo um
pouquinho por vez, que também é Pernambucana, vai fazer 70 anos em abril, tem
13 netos, ainda faz faxina e uns bicos...chegamos na Juventus-Mooca, antiga
estação férrea. Dois rapazes que certamente voltavam do seu turno de trabalho,
nos ajudaram a chegar na plataforma certa. A Dona Lourdes me falou da pamonha que
“faz como ninguém”...entramos no trem, na próxima estação, Brás, ela desceu,
nos despedimos no vagão e a gratidão no seu olhar fará morada eterna em minha
alma...vou seguir sonhando com o sabor da pamonha...
Ainda na Turquesa, segurando perto da saída, uma nova
conversa de duas mulheres jovens partilhando com sorriso a aridez de aperreios:
“em casa só tenho 2 xícaras, 3 pratos, 1 cadeira e 2 copos. Nem posso receber ninguém”
e gargalharam em sintonia. “No começo é assim mesmo e eu só tenho o que
uso nem posso te ajudar, mas vou ver o que separo.” Elas pareciam ser
companheiras de empresa ou bairro, dividindo cenas da vida na ida e volta da
linha férrea. Um nó na garganta e a o aviso da nossa estação. Descemos na Barra
Funda, elas e os demais seguiram. A estação do meu Palmeiras, meu time e eu senti saudades dos dias dos jogos que fui junto com meus irmãos. Sobe, desce escada, plataforma lotada de
pessoas, uma filha consola a mãe que chora abraçada em seu ombro, ou seria
amiga? Eu choro por dentro e ouço as maravilhas da química e da evolução tecnológica
desse século que a Isa me ensina. Os ambulantes vendendo água, cerveja gelada,
kit manicure pronto para uso: “já está amolado e esterilizado, só 20 Reais.” Depois
de Altino saímos espremidas em Osasco. Estava abafado, tínhamos sede e cansaço.
Água, café e partida. Isa foi encontrar o pai e irmão, eu segui para minha
consulta.
Na Avenida Santo Antônio, o padroeiro de Osasco que está
sem catedral. A construção da nova em pleno vapor. Enquanto aguardo minha vez, reencontro
com conhecidos das antigas. Dessas surpresas preciosas que nutrem a teia do
tempo. Da consulta para o café amizade. É incrível a grandeza do diálogo com quem
temos refinamento de alma. Noite, calçada, céu, abraço e despedida. Entro no
quinto Uber do dia. Destino casa. Sou surpreendida de uma maneira que não há
palavras para descrever. O que eu ouvi e senti no intervalo de quase 20 minutos
seguirá ecoando. Como alguém que talvez eu nunca mais encontre foi capaz de transmitir
uma mensagem tão tocante? Que resposta! Deus envia sinais e anjos. É nessa
trilha de AMOR que eu encontro sentido em todas as estações e com os
personagens que eu cruzar.